Quíron

O curador-ferido e a individuação

Renata Ferraz Torres* Junguiana vol.36 no.1 São Paulo jan./jun. 2018

RESUMO

Este trabalho tece reflexões a respeito da importância da elaboração do arquétipo do curador-ferido na vida do analista. A autora discorre sobre livros e artigos de periódicos que endereçam o tema.
Palavras-chave: Arquétipo do curador-ferido, individuação, elaboração simbólica.

Este é um trabalho que se pretende ser além do teórico. A ideia não é discorrer teoricamente sobre o arquétipo do curador-ferido, mas compartilhar observações e questionamentos que possam aprofundar a vivência e levar a uma compreensão transcendente a respeito do tema. Para isso, trarei algumas histórias de curadores que também são feridos e de feridos que também são curadores.
Acredito sinceramente que buscar uma reflexão a respeito do arquétipo do curador-ferido, assim como a elaboração desse aspecto em sua individuação, é tarefa fundamental para qualquer profissional de saúde. O que dirá do analista.
Ninguém escolhe uma profissão de saúde de maneira incólume. Uma escolha como essa vem a serviço de algo, tem algum significado anímico profundo. Atende a uma vocação, a um daimon, para alguns. Para outros, pode ser um caminho defensivo, a serviço de uma sublimação, ou até representar uma formação reativa. Ao longo da vida de um mesmo indivíduo, essa resposta pode oscilar, sendo ora uma coisa, ora outra. Nesse sentido, permanecer com a pergunta pode ser mais proveitoso do que respondê-la apressadamente, na tentativa de se livrar do questionamento.
Como acontece com os arquétipos, podemos vivê-lo em diferentes níveis. O arquétipo do mestre-aprendiz é vivido num determinado aspecto enquanto se é aluno, e em outro, quando se torna professor. Assim é com o arquétipo da Grande Mãe ou do pai: num nível quando se ocupa o papel do filho, em outro nível, no papel parental. E assim também é com o arquétipo do curador-ferido: ele é vivido numa dimensão quando se é o curador, e em outra dimensão quando se tem uma ferida. Mas o que dizer daqueles que, ao longo da vida, ocupam as duas pontas do espectro, concomitantemente?
Na mitologia grega, temos que Quíron, o centauro que era versado nas artes da cura, levou uma flechada não intencional de Héracles, seu discípulo. A flecha almejava atingir outros centauros e fisgou Quíron na coxa, produzindo uma ferida muito dolorosa e que tinha a propriedade de nunca cicatrizar. Nesse símbolo do centauro podemos observar a dualidade entre a razão (metade humana) e o instinto (metade cavalo), caracterizando um conflito entre a medida harmoniosa, apolínea, e a pulsão animal, dionisíaca. Aqui nasce, na referência da mitologia grega, um exemplo paradigmático do arquétipo do curador-ferido: Quíron ensina medicina, mas é incapaz de curar-se. Sendo imortal, deve carregar essa dor para sempre. Num trágico fim sacrificial, mas com um caráter também libertador, Quíron troca de lugar com Prometeu, conquista sua mortalidade morrendo e torna-se constelação por obra de Zeus. Outro aspecto digno de nota é que Quíron é o mestre de Asclépio, pai da medicina.

Enquanto eu cursava a faculdade de medicina, refleti muito sobre essa dualidade: ser curador e ser ferido, concomitantemente. Ora parecia-me incompatível, em outros momentos, sentia uma esperança de que as duas pontas poderiam se dar as mãos. Ao olhar para os lados, eu não via muitos exemplos de médicos ou estudantes portadores de alguma enfermidade. Pegava-me pensando, também, que muitas pessoas têm feridas não expostas, e que podem estar vivendo a dualidade do arquétipo do curador-ferido sem que ninguém perceba. Feridas psíquicas, angústia existencial, quando não uma doença mental.
Lembro-me, no entanto, do espanto que tive numa aula de genética em que discutíamos os limites éticos da tecnologia. Um colega expressou que achava que seria um ótimo médico, pois nunca ficava doente. Senti um grande estranhamento. Para minha surpresa, nem a professora nem os outros alunos esboçaram qualquer inquietação, e a aula seguiu normalmente após aquela declaração. Esse fato aconteceu há cerca de 20 anos, e sua lembrança ainda é nítida em minha memória. Essa passagem ilustra a tendência a considerar que o médico não sofre ou adoece, que sua vivência é diametralmente oposta à do paciente. É uma tendência perigosa, pois cinde arquetipicamente a dualidade curador/ferido, aumentando a distância entre o médico e seu paciente, contribuindo para uma relação entre eles que é desfavorável. Além do mais, não é verdadeira: a qualquer momento o médico pode adoecer e, neste prisma apolíneo, encontra-se despreparado para enfrentar o outro polo.
Ao longo dos anos, dois livros me influenciaram muito, e trago-os comigo, como leitura de referência, nesse aspecto de grandes curadores portadores de feridas incuráveis. Ambos foram escritos por mulheres norte-americanas e têm uma força própria que só o relato autobiográfico é capaz de atingir.
Uma das autoras é a psicóloga Kay Redfield Jamison (JAMISON, 2009), que é professora de psiquiatria na Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Ela é um grande expoente no estudo do transtorno afetivo bipolar. Escreveu muitos artigos científicos sobre o tema, inclusive sendo coautora de um compêndio sobre a doença, publicado em 1990, que se tornou uma grande referência no campo de estudo psiquiátrico. Pois em 1996, Kay surpreende ao publicar um livro autobiográfico revelando ser ela própria portadora do transtorno bipolar. No livro, relata seus dramas pessoais e a batalha com a doença que a levou a depressões seríssimas, inclusive com uma tentativa de suicídio, além de manias psicóticas e estados mistos, em que se experimenta concomitantemente sintomas de depressão e de mania. Também escreve sobre sua batalha na aceitação do remédio maravilhoso e maldito que a fez passar por muitos efeitos colaterais, mas que terminou por salvar sua vida: o lítio.
A outra autora que é para mim um exemplo é a médica Rachel Naomi Remen (REMEN, 1998), pediatra de formação, chegou a ser catedrática e diretora-adjunta da clínica de pediatria da Universidade de Stanford, na Califórnia. Rachel hoje trabalha como terapeuta em psico-oncologia, além de atender outras pessoas portadoras de doenças graves, com expectativa de vida curta. Sua história como paciente é pungente e extraordinária: aos 15 anos foi diagnosticada com um grave caso da doença de Chiron, uma patologia intestinal de difícil manejo. Desde a adolescência foi submetida a doses tóxicas de medicação, a única alternativa para mantê-la viva, passando por diversas cirurgias grandes. Teve muitas ocorrências dramáticas, como entrar em coma depois de um sangramento muito forte no início da doença, ganhar uma barba cerrada aos 16 anos de idade em decorrência do uso de altas doses de corticóide, a ponto de ter que se barbear todos os dias. Além disso, ainda em decorrência da toxicidade das medicações que almejavam mantê-la viva, Rachel sofreu fraturas espontâneas em diversos ossos, quase morreu depois de uma cirurgia, e teve uma perda significativa de sua visão por catarata e glaucoma. Aos 29 anos, teve boa parte de seu intestino removido cirurgicamente, ficando com uma bolsa de ileostomia. Recebeu sentença de morte de médicos, que disseram que ela não chegaria à meia-idade. Em função disso, desistiu de se casar e de ter filhos, mas está viva até hoje, aos 76 anos de idade, dando palestras, workshops, atendendo na clínica e sendo autora de alguns livros que considero extraordinários. Essa pessoa, com uma história de doença tão dramática, é uma incrível curadora.
"Uma mente inquieta", de Kay Redfield Jamison, e "Histórias que curam", de Rachel Naomi Remen, são livros que recomendo fortemente para qualquer estudante ou profissional de saúde que queira se aprofundar no testemunho do que é viver as duas polaridades do arquétipo do curador-ferido concomitantemente.
Em seu livro, Remen (1998) conta diversas histórias sobre seus pacientes e outras sobre si mesma. Uma dessas histórias de que gosto especialmente é a respeito de sua recuperação após uma cirurgia abdominal de emergência, motivada por peritonite e sépsis. Rachel conta que, ao ser levada às pressas para a sala de operação, o cirurgião - também um amigo pessoal - disse, correndo ao lado de sua maca: "você sabe, devido à infecção, teremos que conseguir uma cicatrização por aderência primária" (REMEN, 1998, p. 83). Rachel comenta que essa conversa era típica de colegas médicos, como se estivessem dissociadamente discutindo teoria a respeito de um paciente que não estava presente. Relata que ao ouvir "aderência primária", cheia de remédios e se sentindo muito mal, não atinou para o significado da expressão. Aderência primária significa não dar pontos, deixar a ferida aberta para que o próprio organismo feche lentamente a abertura cirúrgica, em seu próprio tempo, pois a ferida está infectada e não deve ser fechada para dar a oportunidade de que o organismo purgue e se livre da infecção. Rachel só se deu conta no dia seguinte da cirurgia, quando a enfermeira veio trocar seu curativo, e ela, horrorizada, vê uma grande ferida aberta, como tantas vezes vira durante uma cirurgia em um paciente anestesiado, antes que fossem dados os pontos. Ficou terrivelmente chocada, pensando que não havia como uma coisa dessas sarar. Nos dias subsequentes, não olhava para a ferida durante a troca de curativo operada pela enfermeira, cética e desesperada. Depois de mais ou menos uma semana, ocorreu a ela que, afinal de contas, continuava viva. Talvez ela não fosse morrer em consequência daquela ferida. Pensou muitas coisas sobre o que fazer com aquela lacuna - a seu ver impossível de ser preenchida - antes de tomar coragem e olhar novamente a cicatriz cirúrgica. Quando finalmente olhou, percebeu que a cicatriz começava lentamente a se fechar. Isso passou a ser um ritual diário: a enfermeira vem trocar o curativo da cicatriz e Rachel observa "aquela grande ferida, do modo lento e paciente de todas as coisas naturais, gradualmente se tornava uma cicatriz da espessura de um fio de cabelo" (REMEN, 1998, p. 37). Observa como ela, médica, não tinha nenhum controle sobre aquilo, o que se constituiu numa experiência "que infunde humildade".
Humildade é uma palavra-chave na vivência orquestrada pelo arquétipo do curador-ferido. Não é possível controlar nem conduzir alguns processos de cicatrização e regeneração: eles têm seu próprio tempo, cabe apenas observá-los, aguardá-los e muitas vezes admirá-los. A cura possível virá no tempo possível, e é preciso aprender a ficar em paz com essa realidade. A palavra aceitação também tem um lugar cativo nesse processo. Algo acontecerá de dentro para fora, e cabe apenas aceitar.
O livro de Kay Redfield Jamison (2009) é mais linear do que o livro de Rachel. Enquanto o segundo pode ser lido de forma não consecutiva, pois conta inúmeras histórias, algumas em que Rachel figura como curadora e outras, como paciente; o livro de Kay conta sua biografia cronologicamente, desde menina crescendo com seus pais e irmãos até a idade madura, passando pelos múltiplos episódios de transtorno afetivo bipolar. É notável a gravidade de seu quadro, pois ela chegava a ter manias psicóticas em que experimentava delírios e alucinações. Tão notável quanto o aspecto patológico, está também a fibra e tenacidade com que se agarra à vida. E é muito bonita a descrição da aliança terapêutica que constitui com o seu psiquiatra, o qual via semanalmente, e ambos estabeleceram um vínculo de muito respeito, cumplicidade e seriedade. Além da medicação, Kay enfatiza a importância da psicoterapia mesmo em casos psiquiátricos graves. Suas mazelas fizeram com que compreendesse e tivesse empatia por pacientes com transtorno bipolar do humor que tinham dificuldades semelhantes às suas, como, por exemplo, a aceitação da medicação. Conta minuciosamente como era difícil aceitar o lítio, que lhe trazia efeitos colaterais importantes - vale dizer que naquela época tomava-se doses substancialmente superiores, e a composição da medicação era um pouco diferente - e a colocava numa linha de normalidade que lhe parecia medíocre. Queria dormir quatro horas por noite e se sentir suficientemente descansada, porém isso só acontecia quando estava numa leve hipomania, que durava poucos dias e logo escorregava para uma mania desastrosa.
Após o livro autobiográfico, Kay escreveu outro volume, intitulado "Tocado pelo fogo: a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico" (REMEN, 2007), em que descreve casos de artistas já falecidos nos quais existe um provável diagnóstico de transtorno de humor bipolar e um traço de genialidade. No livro, ela examina as relações entre o temperamento artístico, um desajuste psiquiátrico e a genialidade. De fato, a autora organizou junto com um amigo músico uma série de concertos com a Filarmônica de Los Angeles em um programa baseado na música de alguns compositores que sofreram com o transtorno bipolar. O objetivo era despertar a consciência para os transtornos mentais e também um olhar para a criatividade que acompanha tais temperamentos.


Referências
BORNHEIM, G. A. Introdução ao filosofar: o pensamento filosófico em bases existenciais. São Paulo: Globo, 2009.   [Links]
FRANKL, V. E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 25. ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2008. [Links]
GROESBECK, C. J. A imagem arquetípica do médico ferido. Junguiana, v. 1, p. 72-96, 1983. [Links]
GUGGENBÜHL-CRAIG, A. O arquétipo do inválido e os limites da cura. Junguiana, v. 1, p. 97-106, 1983. [Links]
JAMISON, K. R. Uma mente inquieta: memórias de loucura e instabilidade de humor. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.   [Links]
REMEN, R. N. Histórias que curam: conversas sábias ao pé do fogão. 3. ed. São Paulo: Ágora, 1998. [Links] 


* Adaptado de palestra proferida no 7º Congresso Latino Americano de Psicologia Analítica, realizado em Buenos Aires no ano de 2015. Médica pela USP, psiquiatra pelo HC-FMUSP, membro analista da SBPA-SP e da IAAP, membro da Comissão de Ensino da SBPA-SP renata.ferraz.torres@gmail.com
1 Informação fornecida por Henry Abramovitch durante palestra em São Paulo, em mar. 2012.



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