Quíron por Dimitri Camiloto



A propósito da conjunção entre a Lua e Quíron de hoje:

Quíron entrou em definitivamente em Peixes no dia 9 de fevereiro de 2011 e permanecerá no signo até o início de 2019. Lembrando que Netuno, um dos regentes de Peixes, está de volta ao signo, o que não acontecia desde 1862.
O mito
Quíron (ou Quirão) era um centauro, nascido de uma cópula em que Saturno estava metamorfoseado em cavalo para seduzir Filira. Abandonado, foi encontrado por Apolo, que foi seu pai adotivo e lhe ensinou todos os seus conhecimentos: artes, música, poesia, ética, filosofia, artes divinatórias e profecias, terapias curativas e ciências. Ao crescer, Quíron foi para as florestas e montanhas, aprendendo mais sobre botânica e caçando junto de Ártemis.
Ao contrário do resto dos centauros que, como os sátiros, eram famosos por serem grosseiros e delinquentes, bebiam demais e estavam sempre propensos à violência e arruaças, Quíron era inteligente, educado e bondoso. Dotado de muita sabedoria, inteligência e virtude, ele tinha o conhecimento de plantas medicinais e talento para a cirurgia, e assim tornou-se tutor, professor e curador, sobressaindo-se, obviamente, em relação a todos os outros centauros que existiam. Kheír em grego quer dizer “mão”, e seu nome traduz a grande habilidade nas mais variadas áreas, mas principalmente para cuidar de doentes e ensinar as pessoas.
Foi na escola de Quíron que Hércules aprendeu a medicina, a justiça e a música, assim como os mais importantes príncipes e heróis. Ao tocar acordes em sua lira, Quíron era capaz de curar moléstias. Utilizando a astrologia, ele antevia circunstâncias e alertava sobre a possibilidade de situações ruins ocorrerem, para que as pessoas pudessem evitá-las.
Em uma contenda entre Hércules e os centauros, estes últimos se refugiaram nas cercanias de onde Quíron morava, tentando aplacar a fúria do seu algoz com a presença de seu antigo mestre. De nada adiantou: aliás, uma flecha embebida com o sangue da Hidra de Lerna errou o alvo e atingiu justamente a coxa de Quíron. Desesperado, Hércules foi tentar salvá-lo com um remédio que havia aprendido com o próprio professor. A moléstia, porém, era incurável: Quíron era imortal (pois era filho de um titã) e seu sofrimento iria se estender pela eternidade.
Sentindo dores terríveis, ele suplica a Zeus que ponha fim à sua existência. Para que pudesse morrer, Quíron transfere sua imortalidade para Prometeu e, assim, permite indiretamente que a humanidade domine o fogo. Zeus, então, coloca o centauro no Céu para sempre, na constelação de Sagitário.

O fator Quíron

O mito de Quíron evoca muitas reflexões interessantes. Em primeiro lugar, existe a questão de ter sido abandonado, o que tanto pode se manifestar na vida de uma pessoa de forma concreta ou em termos de lacunas e carências emocionais. De antemão, esse é o primeiro desafio de Quíron, tanto no que tange curar a si mesmo como aos outros.
A adoção de Apolo, porém, chama atenção para algo muito importante, que é o fato de, na ausência dos pais, o universo sempre dar um jeito de trazer alguém mais afinado com a natureza daquele “órfão”, que na Iniciação tem relação direta com os encontros de mestres e aprendizes. Note que, ao longo de sua vida, Quíron foi tutor e professor de diversos heróis e figuras de destaque.
Outro ponto fundamental é o grupo a que Quíron pertence, pois ele é um centauro. Centauros são criaturas de má-fama, beberrões e barraqueiros. Quíron se mostra um centauro à parte: ele é sábio, centrado, dedicado a ir fundo nas mais variadas áreas do conhecimento e tem a sensibilidade lapidada pelas artes e pelo desejo de ajudar o próximo.
Vemos, portanto, que Quíron é a própria personificação da capacidade inerente a qualquer ser humano de superar um estigma, seja ele familiar, social, físico ou o que for. Não nascemos para repetir ou aceitar de bom grado uma marca, um rótulo, mas antes para nos modelarmos conforme nossas inclinações.
Por último, temas tão controversos como a própria validade de um certo tipo de imortalidade e a eutanásia, já que Quíron pede para morrer. O final de sua história relativiza a idéia de vida eterna, pois ele a perde para ganhar outro tipo de eternidade na constelação de Sagitário.
Já o anseio de um paciente terminal em pôr fim a uma existência de muito sofrimento e dor é algo que divide opiniões. Todavia, o mito de Quíron traz mais essa reflexão importante sobre a transformação e o renascimento, que deve ser transposta para nossas vidas de forma simbólica, assim como todos os outros “desafios” que apontei acima. E, claro, a identificação com sua missão maior, que era cuidar, ensinar e curar as pessoas.
Busque pelo signo e pela casa onde Quíron está no seu mapa e você certamente terá revelações importantes sobre estes desafios.

Quíron em Peixes:

Júpiter rege os signos de Sagitário e Peixes, e é a partir daí que podemos fazer uma ponte entre Quíron e Peixes. Em ambos os signos existe a propensão para buscar um sentido para vida que não encontramos na vida mundana, no senso comum e nas regras cotidianas. Sagitário, porém, é muito mais taxativo nesta busca da verdade, em função de valores e certezas, enquanto Peixes compreende tudo depender daquilo que sentimos e das mudanças nos próprios valores e certezas depois que realmente nos fundimos no todo. Isso fica claro quando percebemos que Sagitário é um signo do elemento Fogo, enquanto Peixes é Água.
Em função da imagem de “curador ferido”, Quíron estabelece de antemão uma forte analogia com Peixes, um signo que caracteriza estar com um pé em cada mundo, vivendo aqui e no além ao mesmo tempo. Fica claro que Quíron é mais sensível, refinado e sutil que os demais centauros, sua bondade e vocação para cuidar das pessoas podem ser pensadas como atributos piscianos.
Por outro lado, em Peixes há sempre o risco da loucura quando a aptidão para circular entre os mundos não é desenvolvida de maneira adequada, podendo descambar para a bebida e ou outras formas de desvario. Em Peixes certamente existe a dor das limitações que a existência mundana impõe à alma que deseja enfim se fundir finalmente com o todo, com o universo, destino final após a roda das encarnações.
As pessoas com Quíron em Peixes no mapa astral nasceram entre 1910-18 ou 1960-68. Quíron entrou em Peixes em 9 de fevereiro de 2011 e permanecerá no signo até o início de 2019. O tempo médio do trânsito é de oito anos, mas sua órbita é muito irregular e em algumas ocasiões ele leva menos da metade desse tempo para atravessar um signo. Se você nasceu no início ou no final dos trânsitos apontados acima, é importante checar no próprio mapa se realmente tem Quíron em Peixes ou nos signos vizinhos, Aquário e Áries. O retorno de Quíron ocorre por volta dos 50 anos de idade.
Quando Quíron está em Peixes, tanto para quem nasceu com a posição como em um trânsito, como agora, as pessoas enfrentam uma forte sensação de que a individualidade não dá conta do desejo natural de fusão com o todo, algo que se coloca como um imperativo e uma realidade. Em suma: a identidade não é capaz de preencher a ânsia por experiências emocionais intensas, a percepção e a sensitividade sempre em expansão impelem a pessoa para fora de si mesma e, por fim, a consciência de ser o próprio universo está o tempo todo escancarando a ilusão que é ser e sentir-se um indivíduo.
De fato, isso pode ser assustador e muito difícil de lidar, porque é justamente o contrário da “regra”, do que as pessoas costumaram nos dizer desde que viemos para esse mundo. A reação que cada um vai ter diante dessa constatação, ou melhor, dessa verdadeira pressão para mergulhar fora de si mesmo e encontrar-se no todo, vai depender da própria consciência espiritual e da qualidade do intercâmbio entre-mundos que cada pessoa traz dentro de si. Para uns, infelizmente, o caminho da fuga, da ilusão e do entorpecimento poderá criar o vínculo com entidades obsessivas e vampiras, para outros, porém, será justamente a libertação e a transcendência para uma existência muito mais feliz e plena, em sintonia recíproca com egrégoras de ascensão, revelação e cura. Como estamos em um trânsito de Quíron em Peixes até o final da década, este é o tipo de questão que se coloca para TODAS as pessoas, e não apenas aquelas nascidas com a posição que, todavia, experimentarão um momento crucial em suas vidas ao passarem pelo Retorno de Quíron.
Quíron em Peixes geralmente traz o dom de sentir a dor dos outros, e isso pode acontecer de várias formas. Essa empatia, algo especialmente pisciano, pode se manifestar através da aptidão que mestres e curadores têm em acessar e canalizar o sofrimento e a doença alheia, por meio de uma forte identificação com o que está fora deles (como apontado no parágrafo anterior) e que auxilia na captação e na canalização do problema, no diagnóstico, numa terapia compreensiva em relação ao próprio problema, sem demonizá-lo e no contato com forças transcendentes capazes de colaborar para a cura.
Por outro lado, essa sintonia com a dor alheia pode ser problemática sim, especialmente no que tange pessoas sensitivas com forte poder de captação e facilidade para entrar na dor e no problema do outro sem, contudo, criarem um filtro de luz que evite a contaminação ou a perturbação de si mesmo. Isso ocorre bastante com médiuns recalcitrantes ou educados de modo inadequado.
Essa sensitividade típica de Quíron em Peixes, tão aguçada, invariavelmente exige da pessoa momentos de maior recolhimento, em que ela precisa entrar em contato mais profundo com tudo aquilo que captou e entrou em contato, digerindo, assimilando e expelindo as energias, as vibrações e os conteúdos psíquicos, emocionais e espirituais com os quais se envolveu. É aqui que Quíron cuida mais atentamente de si mesmo, pois não basta tão-somente cuidar do outro: como vimos, este é um tema muito caro ao mito do centauro curador! A meditação, a yoga e todas as terapias de reequilíbrio interior são de enorme importância para as pessoas nascidas com Quíron em Peixes e, também, durante os seus trânsitos: ficamos mais sensíveis à agitação e confusão de estímulos vindos de fora, e precisamos de momentos de retiro para reencontrar o centro. 



Note que o glifo astrológico para Quíron é uma chave. Ora, uma chave abre o que está fechado ou trancado. Isso serve para os conteúdos traumáticos, conscientes ou não, e os corpos emocionais em desequilíbrio, que geralmente ficam guardados no lodo, deitados no nosso íntimo, mas sempre tendo reflexos diretos na forma como existimos e na qualidade de vida. Mas, sem dúvida, Quíron é também é uma chave que abre a sensitividade para a empatia com a dor e os problemas do outro, algo primordial para um verdadeiro curador. Quíron em Peixes representa a chave para uma mediunidade curadora e, por extensão, para o contato com outras dimensões e entidades capazes de ajudar na transcendência da dor e da realidade mundana.

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