A ferida de Quíron

O episódio que conferiu a Quiron o título de Curador Ferido é de suma importância em sua história. Na versão mais conhecida, Hércules é convidado pelos Centauros para jantar. Surge uma briga entre eles e Hércules começa a atacá-los. Os Centauros fogem em todas as direções, perseguidos por Hércules, e uma de suas flechas fere Quíron na coxa, causando-lhe uma ferida incurável que o faz sofrer pelo resto da vida. Numa variação dessa narrativa, um dos Centauros feridos rasteja até a gruta de Quíron à procura de refúgio. Enquanto tenta ajudá-lo, Quíron fere-se com a flecha envenenada e sofre numa eterna agonia.) Em outra versão, Quíron é ferido numa batalha deflagrada entre os Lápitas e os Centauros quando estes, em estado de embriaguez, tentam estuprar uma noiva dos Lápitas.

Quando por um instante nos detemos para considerar as implicações do mito, vários aspectos significativos emergem. A batalha durante a qual Quíron é ferido envolve os Centauros contra Hércules ou os Lápitas. Por conseguinte, as facções em luta simbolizam o conflito encarnado na forma de Quíron: os Centauros representam a metade inferior de Quiron, a sua parte animal rejeitada, enquanto os Lápitas e Hércules configuram a metade humana superior. Essa ferida é o legado de séculos de repressão e perseguição do nosso self instintual e é o estado em que se encontra hoje grande parte de nosso chamado mundo civilizado. O conflito aloja-se na própria ferida de Quíron e prenuncia seu destino singular como imagem de uma possível reconciliação desses pólos opostos.

Hércules é o paradigma bem conhecido e típico da figura do herói grego, que simboliza o impulso para a conquista e perfeição; este aspecto do princípio masculino dominou grande parte da cultura ocidental nestes últimos séculos. A despeito de o lado positivo de Hércules representar as nobres virtudes de força, perseverança e individualidade, que são necessárias para a formação do ego a partir do inconsciente, seu lado negativo é desagradável e destrutivo e pode caracterizar-se por conquista e dominação sem qualquer propósito, por uma psicologia do “poder como prerrogativa”, desvalorização do instintual e do feminino e supervalorização do heroismo à custa de muito sofrimento humano. As manifestações desses valores na história e no mundo atual quase não precisam ser denunciadas por serem tão óbvias, mas justificam uma repassada mais detida no mito de Hércules.


HÉRCULES E O HERÓICO
Na Grécia pré-clássica, o culto do herói, como o culto dos mortos, era a contraparte ctônica do culto aos deuses. Representava uma progressão dos cultos de veneração dos antepassados, mas constituía ainda um rito local. Os túmulos dos que eram heroicizados quase sempre constituíam o palco de sacrifício de sangue e complexos rituais de luto. Grandes infortúnios podiam advir da ira de um espírito insaciado que, por outro lado, também tinha a faculdade de outorgar favores aos que suplicavam diante de seu túmulo. Os feitos dos heróis, enaltecidos com o tempo, criavam uma figura compósita que as gerações subseqüentes procuravam imitar. Assim, o herói desempenhava originalmente uma função religiosa, atuando como intermediário entre os vivos e os mortos, adquirindo neste aspecto um caráter quase “xamânico”. Todavia, essa imagem gradualmente foi sendo interpretada de forma literal e passou a representar um modo ideal de estar no mundo, uma tentativa de atingir a imortalidade e evitar o esquecimento.

Hércules tinha um irmão gêmeo, Íficlo, de temperamento medroso e tímido, enquanto Hércules era forte, corajoso e audacioso. Íficlo consumiu sua vida na futilidade, morreu em batalha sem qualquer ato de bravura e, pela sua ausência, intensifica o aspecto unipolar da figura de Hércules, que não parece incorporar nenhuma das qualidades de Íficlo; com efeito, sua sede de conquista era insaciável e não era contida pelo medo, nem pela fraqueza e moderação que caracterizavam o irmão.

Hércules foi um dos discípulos de Quiron; este tipo de relacionamento torna ainda mais pungente o fato de ter sido ele o causador da ferida incurável. A flecha que atingiu Quíron era envenenada com o sangue da Hidra, monstro contra o qual Hércules lutou em um de seus famosos trabalhos. Toda vez que Hércules cortava-lhe uma das cabeças, renasciam outras nove, sugerindo o poder destruidor e devorador do feminino; é também uma imagem do animal arraigado e enleado em que se transformam nossos próprios instintos quando são ignorados e reprimidos ou tratados agressivamente e “confrontados”. Hércules consegue finalmente vencer a Hidra ao ajoelhar-se diante dela e elevá-la no ar. Isso vem nos mostrar que qualquer tentativa no sentido de eliminar ou er- radicar nossos próprios instintos tem por efeito multiplicálos; estes passam então a nos dominar e procuram vingar-se. Na verdade, devemos ser humildes e respeitar o poder instinlual numinoso que a Hidra simboliza, protegendo-nos com consciência para não sermos subjugados por ela.

Significativamente, Hércules encontra a morte através de um Centauro, Nesso, que desejava vingar-se dele por haver causado a devastação de sua raça. Entretanto, Nesso é morto por Hércules quando tenta violentar sua mulher Dejanira. Moribundo, o Centauro recomenda a Dejanira que use seu próprio sangue como feitiço contra a freqüente infidelidade de seu esposo Hércules. O sangue era, entretanto, envenenado e, mais tarde, Hércules sofre uma morte terrível, envolto numa túnica embebida no veneno causticante.

Assim, vemos Quiron numa relação curiosamente ambivalente com o principio heróico. Sua vida é salva por Apolo, que o inicia em muitas artes. Mais tarde, Quiron transmite a seus jovens discípulos os ensinamentos recebidos, e no entanto é um desses heróis que o fere. Podemos observar essa singularidade onde quer que o planeta Quiron se encontre .% no mapa: com freqüência, representa coisas que temos a capacidade de fazer para os outros, mas que não podemos fazer para nós, qualidades que outros facilmente percebem em nós, mas que não podemos ver. Muitas vezes, são exatamente coisas de que necessitamos sobremaneira para nosso próprio crescimento e nossa cura, mas que nos escapam e passam para outros.

No mitologema de Quíron está também configurado um conjunto de três figuras que se constelam ao redor do posicionamento do planeta Quíron na carta de nascimento, nas áreas de vida sugeridas pela sua casa e signo. Essas figuras podem ser internas, subpersonalidades conscientes ou sombras inconscientes; ou podem ser projetadas em pessoas com as quais o indivíduo interage. Qualquer que seja o tipo de manifestação, pode haver considerável conflito entre elas. Essas três figuras são: o ferido/vítima, o agressor/perseguidor e o curador/salvador/redentor. Como no mito, as situações de impasse psicológico podem ser algumas vezes superadas ao descobrirmos essa tríade interna. Em momento oportuno exploraremos esses temas com mais detalhes.

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